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Crescer Dói

April 29th, 2008 | Postado por Pastor Daniel em Busca da Maturidade - (0 Comentário)

“E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça….”

Há um livro interessante que acabou virando filme, chamado “O Tambor”, do alemão Günter Grass. É a história de um menino teimoso que se recusava a crescer. Quando queria alguma coisa pegava seu tambor e ficava batendo com um cabo de vassoura sobre ele até que alguém o atendesse. E já com idade adulta tinha a aparência e o corpo de uma criança.

Às vezes penso que é menos penoso continuar sendo o que sempre fomos. Para que arriscar? Para que sair do porto seguro e singrar por rios perigosos e traiçoeiros, que não conhecemos bem? Para que sair do aconchego dos pensamentos que trazem sossego à alma, e aventurar-se por abismos e montes escarpados? O senso comum diz que viver na planície é mais seguro que escalar as altas montanhas.

Há cristãos que gostam de viver nas planícies – as montanhas lhes dão vertigens. Há cristãos que se recusam a sair da segurança encontrada nos limites do terreno em que ele mantém controle, e sair fora dessa área demarcada na alma é inimaginável para ele. É o medo de “perder” a identidade, é o medo do novo, o medo do não conhecido.

Crescer é “abandonar” posições confortáveis, é deixar o que é seguro, é começar a subir em direção ao ar rarefeito dos cumes. Crescer é recusar a permanecer no conquistado, é romper com o passado, uma ruptura que vai levar a uma descontinuidade da rota até então vivida. Crescer dói porque nos leva a dar um passo quando queríamos ficar parados. Os fariseus foram incapazes de entender o que Jesus dizia e fazia porque recusavam dar o segundo passado, a andar a segunda milha…

Todos os seres vivos, animais e vegetais e até mesmo os minerais têm em si o potencial de crescimento. Uma semente de laranja carrega em si a potencialidade de um pé frondoso carregado de frutos. Um pires com água e sal deixado por alguns dias começa a produzir pequenos cristais de sódio. Todas as plantas crescem em direção ao sol.

Creio que o cristão traz em si a capacidade de crescimento que o Espírito nos dá. Se não temos crescido devemos olhar o que tem impedido esse processo. Muito provavelmente desenvolvemos “apegos” à nossa forma de ser. Eles funcionam como laços que nos impedem de dizer adeus à nossa infância, aos nossos quereres, às manhas e manias, à forma fixa de pensar. Não raro vemos adultos carregando sombras não resolvidas do passado que assombram o presente, vemos homens e mulheres incapazes de um relacionamento saudável por conta de resquícios infantis.

Paulo diz que ele plantou, Apolo regou, mas Deus é quem dá o crescimento. Todo pai quer ver seu filho crescendo. É o processo natural. A não ser que sofra de “nanismo”, que é o desejo inconsciente de não crescer. “Anões espirituais” temem quebrar paradigmas, a ir além do que foi dado.

Obsessão pelo passado, ou tentar encontrar no presente imagens de um passado que já se foi podem indicar um estratagema mental para não olhar para frente, e com isso não ter a responsabilidade de crescer.

Crescer dói, mas sem crescer não há como alcançar a estatura que Deus deseja para nós.

Pr. Daniel Rocha

DecepçãoEm qual Evangelho você crê? Esta pergunta tem sua razão de ser, porque embora haja um único e verdadeiro Evangelho de Cristo, Paulo faz menção de “um outro evangelho” (Gl 1.6), um “evangelho segundo o homem” (Gl 1.11). Dito de outra forma: há “evangelho” que não é o de Jesus.

O evangelho “segundo o homem” é um simulacro, versão barata, perigosa, eivada de mentiras. É um evangelho de segunda mão, que passa pela interpretação deformada de homens comprometidos com o sucesso de seus ministérios e não com Deus.

Enquanto a Bíblia mostra o cotidiano do crente, sem retoques, de forma nua e crua, o “outro” evangelho maquia a realidade no púlpito e no imaginário coletivo do povo cristão. Soren Kierkegaard, no século XIX já afirmava: “Ainda bem que a vida não é como o sermão do domingo. Ao menos a vida tem sentido e o sermão não”.

E qual o problema de alguém viver fundamentado em fantasias e mentiras? Um dia a vida vai se mostrar em toda a sua crueza e a bolha vai estourar: “Nunca me falaram!”. E teremos uma geração de decepcionados com Deus, que por não terem sido alertados, se tornarão um exército de céticos e amargurados.

Quem deseja viver com sobriedade o Evangelho de Cristo, haverá de compreender e saber que:

  • Deus não coloca os seus filhos em uma redoma de vidro; estamos sujeitos a acidentes, a enchentes, à intempéries da vida. Alguns viverão muito, outros serão chamados cedo e de modo inesperado.
  • Não há garantias que você será possuidor de prosperidade material e abundância de bens. Nem todos terão recursos para fazer a viagem dos sonhos, trocar de carro anualmente ou viver numa casa confortável. Esqueça quando lhe disserem que “você nasceu pra ser cabeça, não cauda”, tirando o versículo inteiramente de seu contexto original [imagine uma copeira cristã servindo cafezinho ao diretor e profetizando que em breve se sentará na cadeira dele].
  • Muitos morrerão da doença que padecem (2Rs 13.14), independentemente da fé que possuem. Lutero durante toda a sua existência foi prisioneiro de longos períodos de depressão. Charles Spurgeon sofria de reumatismo, gota e problemas nos rins. Calvino padeceu de uma dor de cabeça crônica que o atormentou a vida toda. Nem todos escaparão do câncer. Nem todos viverão até cem anos gozando de boa saúde.
  • A vida do cristão não se constitui só de regozijos e vitórias. Sofreremos injustiças, derrotas, perseguições e seremos mal falados. Enquanto pregadores dizem que o cristão deve viver sorrindo, a Bíblia diz que haveremos de prantear. Davi e o povo choraram “até não terem mais forças para chorar” (1Sm 30.4). Isso também pode ocorrer com você: de chorar até não mais poder.
  • Nem todos teremos uma vida familiar tranqüila e harmônica. Davi teve uma família complicada e um histórico conturbado de filhos rebeldes, e até mesmo um caso de estupro e incesto em sua casa. John Wesley, fundador do metodismo, não teve um casamento propriamente feliz, assim como tantos outros cristãos.
  • Na galeria dos “heróis da fé” em Hebreus 11 são lembrados os valentes que venceram, lutaram, e conquistaram cidades. Mas nesta mesma galeria há também, aqueles que foram reconhecidos por Deus como homens e mulheres de fé, mas foram “serrados ao meio… mortos… afligidos… maltratados…” (Hb 11.36-38) e não obtiveram em vida a vitória (Hb 11.40).

Quando falamos em vida abundante, o que vem à sua mente? Dinheiro sobrando, futuro garantido, família saudável, contas pagas, ausência de problemas? Se é isso que você espera de Jesus, é melhor começar a rever seus conceitos.

Em primeiro lugar, vida em abundância não é para ser confundido com excesso de bens, “muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender”. Não é privilégio dos ricos ou dos bem nascidos. É uma promessa de Cristo que independe de condições financeiras, idade, saúde ou qualquer outra distinção. Cristo é o motivo da abundancia. Não é algo que eu consigo por mim, mas algo que recebo em Cristo. Paulo entendeu isso muito bem, e apesar de todos os reveses, dizia: “entristecido, mas sempre alegre, nada tendo mas possuindo tudo….”.

Abundância é a qualidade de algo que sobeja, que derrama, que transborda… e todos usufruem com você. Abundância existe para quem se dá totalmente, sem reservas. Ser pleno é amar demais, é crer demais, é chorar demais. Só o que chora é capaz de sorrir. Querer negar a tristeza a qualquer custo é tornar-se insensível também para a alegria. Viver abundantemente é viver com paixão e intensidade onde Deus lhe colocou.

É um dom de Jesus doar vida de qualidade para quem caminha com Ele. Eu diria que Jesus é “Nutritivo”, pois nos capacita, ensina, anima, fortalece. Felizmente há pessoas que são assim, verdadeiros enviados do Filho que nos compreendem, nos amam como somos, sem impor condições. Com elas, nós crescemos e somos renovados.

Por outro lado, em oposição à abundância de Cristo, há Satanás que veio para “matar, roubar e destruir”. Muitos, sem o saberem, são arautos desta forma de vida. Chamo de pessoas “Tóxicas”: palavras de sarcasmo, ironia, cinismo, não querem servir, mas serem servidas, extremamente egocêntricas, pensando apenas no próprio bem estar…. Claro: ninguém pode dar o que não possui. O único que tem verdadeira vida para doar é Jesus.

Decepcionante é viver somente para si; é querer ser feliz sem compartilhar; é exigir de Deus tratamento especial; é omitir-se acuado para se preservar; é não arriscar nunca; é viver enfadado com tudo; é não saber dar uma sonora gargalhada e rir-se de si mesmo; é paralisar a vida enquanto não recebe de Deus o que tanto quer; é não reconhecer a Graça de Deus naquilo que já tem….

Quem vive se guardando, quem não aceita se consumir como o pavio de uma vela que ilumina a todos, ao chegar ao fim da vida irá se perguntar porque não amou mais porque não arriscou mais, porque não se deu mais…

Ainda há tempo para transbordar!

Cicatrizes

April 19th, 2008 | Postado por rafael em Dor | Espiritualidade - (0 Comentário)

“Quanto ao mais, ninguém me moleste; porque eu trago no corpo as marcas* de Jesus” (Gl 6.17)

MarcaraQuase todos nós carregamos marcas pelo corpo. Muitas são cicatrizes vindas da infância. É possível até contar um pouco de nossa história através delas: a queda da bicicleta, a queimadura no fogão, o corte com a faca, o encontro com o arame farpado…. Alguns mais antigos trazem os sinais que a varíola deixou quando ainda não havia vacina.

Marcas podem ser chamadas de “estigmas” (do gr. Stigmata*), como Paulo o fez em Gálatas 6.17, que eram as cicatrizes provocadas por tortura, apedrejamento ou ferro em brasa para marcar escravos e animais.

É interessante que a literatura sempre se valeu de personagens que foram estigmatizados pelo que traziam no corpo: o corcunda de Notre Dame, de Vitor Hugo, era um homem de feições deformadas, membros retorcidos, porém sensível às manifestações da beleza, e o “Fantasma da Ópera” conta a história de um homem desfigurado que exercia medo e fascínio.

Assim como as queimaduras e os cortes deixam seus sinais pelo corpo, é certo que a alma também possui a propriedade de receber marcas, mas ao contrário do corpo, que com o passar do tempo se regenera, muita dor causada na infância ainda permanece viva. São sentimentos que se perpetuam e os anos parecem não atenuar. É como se aquelas cicatrizes quisessem ser notadas para dizerem: “olhem o que fizeram comigo”.

Se a cicatriz só marcou o corpo, tempos depois somos capazes de rir, pois a dor ficou perdida no passado, mas se ela atingiu a alma, qualquer lembrança do fato faz despertar todo o desespero que causou. E o que é pior: por conta da associação simbólica, aquele que feriu adquire novos rostos, e isso faz com que se continue lutando contra pessoas que não foram exatamente aquelas que causaram a dor.

Conseqüência: muitas oportunidades são perdidas com medo de reviver a dor de um fracasso passado. Outros fecham o seu coração para um relacionamento afetivo para não correr o risco de serem abandonados novamente.

Por que reagimos assim? É o sentimento de vergonha ou humilhação que não quer ser repetido. É como se a alma tivesse feito um juramento: “nunca mais farão isso comigo outra vez”. Quase dá pra ouvir Judas justificando seu apego ao dinheiro para se proteger das privações que passou na infância, ou a prostituta que vende seu corpo para evitar a dor de estar sozinha. As feridas tornam-se então uma espécie de escudo para justificar gestos e escolhas.

O que fazer com marcas tão indeléveis? Dê de ombros, viva a vida que Deus lhe concedeu olhando para a frente, e esqueça-as. Mas não precisa negá-las, apenas saiba que elas estão ali. Faz parte de sua história, é verdade, mas não lhes conceda o direito de direcioná-lo pelo resto de seus dias – são péssimas conselheiras. Lembro-me quando criança minha mãe dizendo: “Não mexa na ferida para não infeccionar”. Felizmente, hoje, estou em paz com elas.

Cicatrizes apontam para lutas, e algumas delas levam a marca divina. Foi um pusilânime Jacó, indolente e “protegido da mamãe” que teve no vau de Jaboque um embate que mudou sua história. Depois de uma madrugada de luta deixou aquele riacho com um novo nome, mas como ninguém sai incólume de um encontro com Deus, ele também foi embora para casa manquejando duma coxa (Gn 32.31), uma marca que possivelmente levou para o resto da vida.

Não sei em quais áreas de sua vida há cicatrizes, mas Deus conhece cada pedaço do seu ser e O sabe. Quasímodo, o corcunda sineiro da Catedral de Notre Dame isolava-se para não expor suas deformações. Uma máscara sobre o rosto desfigurado foi a forma utilizada pelo “fantasma” da ópera para esconder sua “fealdade”. Esconder-se e viver defensivamente parecem ser características comuns de quem se sente ferido. Mas em Cristo, somos libertados desses sentimentos, e podemos dizer como o apóstolo:

“Pela graça de Deus, sou o que sou” (1Co 15.10). Com cicatriz e tudo.